• 001 – O Preço do Amanhã

    Há alguns anos assisti a O Preço do Amanhã, um daqueles filmes cuja premissa é provavelmente melhor do que o próprio filme. Num futuro não muito distante, as pessoas param de envelhecer aos 25 anos e passam a carregar no braço um relógio digital que registra quanto tempo ainda lhes resta de vida. Tempo, naquele mundo, é dinheiro em sentido literal. Trabalha-se para ganhar horas, paga-se o café com minutos, compra-se uma passagem de ônibus entregando uma pequena fração da própria existência. Os ricos acumulam séculos; os pobres vivem de salário em salário, ou melhor, de dia em dia. Se o relógio chega a zero, a conta não fica negativa, não há refinanciamento nem recuperação judicial: a pessoa simplesmente morre.

    Há uma passagem do filme que sempre me pareceu particularmente boa porque traduz em ficção algo que fazemos diariamente sem perceber. Duas pessoas podem possuir exatamente a mesma quantidade de tempo biológico pela frente e, ainda assim, uma delas viver como se o futuro fosse infinito enquanto a outra calcula se chegará ao dia seguinte. O relógio não mede apenas a expectativa de vida. Ele mede a possibilidade de permanecer no jogo. Naquele universo, trabalhar significa literalmente comprar o direito de continuar existindo.

    O nosso sistema é evidentemente menos dramático, mas não inteiramente diferente. Não carregamos um contador luminoso no braço, embora provavelmente muitos de nós olhemos para a conta bancária com uma sensação vagamente parecida. Entregamos trabalho, conhecimento, capacidade empresarial ou capital ao sistema econômico e recebemos, em troca, direitos sobre parte daquilo que esse sistema produz. Chamamos esses direitos de renda, patrimônio, juros, dividendos ou lucro, dependendo da posição que ocupamos. Para a maioria das pessoas, porém, a porta de entrada continua sendo essencialmente a mesma há muito tempo: trabalha-se, recebe-se e consome-se. A renda é o bilhete que nos permite permanecer dentro do circuito.

    Talvez por isso outra distopia tenha envelhecido tão bem. Em Matrix, as máquinas já venceram a guerra, organizaram o mundo à sua maneira e reduziram os homens a uma função quase patética. Ainda assim, por alguma razão, não conseguem prescindir deles. Os corpos humanos permanecem ligados ao sistema porque fornecem a energia necessária para que a própria máquina continue funcionando. É provavelmente melhor não submeter essa parte do roteiro a um engenheiro elétrico, mas a metáfora é boa. Mesmo quando se torna dominante, a máquina ainda depende de algo que o homem possui.

    Frame do Filme The Matrix com a imagem onde seres humas "são cultivados" para fornecer energia as máquinas.

    Lembrei dessas duas histórias lendo a entrevista que Aswath Damodaran concedeu recentemente ao Valor Econômico, depois de um evento da CFA Society Brazil, em São Paulo. A manchete naturalmente ficou com a expressão mais cinematográfica da conversa: para ele, o sucesso da inteligência artificial pode se transformar numa “história de terror”. Mas o trecho que me chamou atenção não foi propriamente a previsão de que empregos serão eliminados — isso seria quase banal a esta altura. Foi a sequência do raciocínio. Damodaran observa que, desta vez, os primeiros ameaçados não são necessariamente os trabalhadores de uma linha de montagem. São banqueiros, consultores, advogados e gestores de recursos. E então pergunta, de maneira quase desconcertantemente simples: se essas pessoas perderem seus empregos, perderão também sua renda; nesse caso, quem comprará os produtos e serviços produzidos com a ajuda da própria inteligência artificial?

    Essa pergunta contém uma circularidade que me parece pouco discutida no entusiasmo atual. Grande parte do valor econômico atribuído à inteligência artificial repousa justamente na hipótese de que ela será capaz de realizar, a um custo muito menor, tarefas pelas quais hoje pagamos caro. Quanto mais sofisticado o trabalho substituído, maior tende a ser a economia potencial. Não é por acaso que os modelos estão avançando tão rapidamente sobre programação, direito, engenharia, análise financeira, contabilidade, arquitetura, pesquisa, marketing e consultoria. Uma hora economizada de uma atividade que custa pouco tem algum valor; uma hora economizada de um profissional que custa centenas ou milhares de reais pode justificar investimentos muito mais relevantes. A tecnologia, como seria de esperar, vai onde o retorno sobre a automação parece maior.

    Só que existe uma sutileza nessa conta. O advogado que desaparece como custo de uma empresa não desaparece da economia. Ele reaparece do outro lado do balanço, agora como consumidor. O mesmo vale para o engenheiro, o consultor, o arquiteto ou o gestor de recursos. São exatamente algumas das profissões que hoje ocupam os estratos superiores da distribuição de renda e sustentam uma parcela importante do consumo discricionário: compram imóveis, automóveis, viagens, educação, serviços financeiros, tecnologia, entretenimento; contratam outros profissionais; investem; tomam crédito; formam patrimônio. Quando eliminamos uma posição de alto custo, é fácil enxergar o ganho na margem de quem empregava aquele profissional. É menos intuitivo acompanhar o que acontece com a renda que deixa de circular fora daquela empresa.

    Foi aqui que me ocorreu uma terceira referência, desta vez não cinematográfica. Em A Revolta de Atlas, Ayn Rand imagina uma sociedade que se acostumou a exigir cada vez mais daqueles que produzem, empreendem, inventam e assumem riscos, ao mesmo tempo em que progressivamente restringe sua liberdade de agir e se apropria dos frutos de sua produção. Em algum momento, esses homens e mulheres simplesmente começam a desaparecer. Não porque tenham perdido a capacidade de produzir, mas porque se recusam a continuar carregando nas costas um sistema que, na visão de Rand, depende deles enquanto simultaneamente os pune por serem produtivos. Atlas, afinal, decide parar de sustentar o mundo.

    imagem mostra a famosa estátua de Atlas no Rockefeller Center, localizada na Quinta Avenida em Midtown Manhattan, na cidade de Nova York

    A analogia com a inteligência artificial evidentemente não é perfeita — e talvez seja justamente por isso que seja interessante. O movimento que começamos a observar pode levar, em determinadas circunstâncias, a um resultado vagamente parecido por um caminho quase oposto. Não são os engenheiros, advogados, empresários, gestores, programadores e demais profissionais qualificados que decidem abandonar o sistema porque estão cansados de sustentá-lo. Eles podem simplesmente descobrir que o sistema precisa cada vez menos deles. Não se trata da greve dos produtores imaginada por Rand, nem de uma rebelião contra aqueles que se apropriam de sua produção. Seria uma espécie de Revolta de Atlas ao avesso: Atlas não larga o mundo; o mundo começa a retirar o peso de seus ombros porque encontrou uma máquina capaz de carregá-lo.

    Há uma ironia adicional nessa inversão. Em Rand, o desaparecimento dos produtores expõe o quanto a sociedade dependia deles. Na versão tecnológica, talvez só percebamos essa dependência depois de termos concluído que eles já não são necessários para produzir. Porque o engenheiro dispensado, o advogado substituído ou o gestor tornado mais eficiente por uma máquina não era apenas uma unidade de produção cara. Era também alguém que recebia uma renda compatível com essa produtividade, consumia, investia, tomava risco e financiava, direta ou indiretamente, outras atividades econômicas. Podemos descobrir que retiramos Atlas da produção e, algum tempo depois, sentir sua falta na demanda.

    Naturalmente, esse raciocínio não implica que todo ganho de produtividade destrua demanda. Seria uma conclusão historicamente difícil de defender. A agricultura mecanizada liberou milhões de pessoas do campo; a indústria substituiu ofícios inteiros; computadores acabaram com incontáveis funções administrativas; a internet demoliu cadeias de intermediação que pareciam permanentes. A cada geração houve quem anunciasse o desemprego definitivo e, até aqui, a capacidade humana de inventar novas atividades, novas necessidades e novas formas de remuneração tem sido maior do que o pessimismo tecnológico. A história não recomenda apostar com muita confiança contra a produtividade.

    Mas há uma diferença que vale pelo menos ser examinada. Durante muito tempo, a tecnologia aumentou principalmente a produtividade física do homem. Depois aumentou sua capacidade de organizar, armazenar e processar informação. Agora ela começa a disputar diretamente algumas das tarefas que justificavam o prêmio salarial pago ao conhecimento. Não estamos construindo apenas uma máquina mais rápida para ajudar o advogado a procurar jurisprudência; estamos experimentando sistemas capazes de produzir a primeira versão do parecer. Não estamos apenas oferecendo ao programador uma ferramenta melhor; começamos a testar agentes que recebem uma tarefa e devolvem software. O mesmo movimento aparece em análise de investimentos, projetos de engenharia, diagnósticos, atendimento, publicidade e uma quantidade crescente de atividades cognitivas. A questão não é se essas profissões desaparecerão — provavelmente não desaparecerão, ao menos não dessa maneira simplista —, mas quantas pessoas serão necessárias para produzir a mesma quantidade de trabalho.

    Esta imagem marcante retrata o icônico ator e diretor Charles Chaplin no aclamado filme "Tempos Modernos" (Modern Times), lançado originalmente no ano de 1936.

    Para uma empresa individual, o incentivo é praticamente irresistível. Se dez profissionais passam a entregar com IA aquilo que antes exigia vinte, a produtividade dobrou. O custo cai, a margem sobe e, se a concorrência funcionar, parte desse ganho será repassada ao consumidor na forma de preços menores. Em escala macroeconômica, porém, é preciso completar a conta. Os dez profissionais que deixaram de ser necessários precisam fazer alguma outra coisa, e essa outra coisa precisa produzir renda. Se encontrarem atividades mais produtivas, melhores e mais bem remuneradas, teremos apenas repetido a história das revoluções anteriores. Se a criação dessas novas atividades ocorrer mais lentamente do que a eliminação das antigas, começamos a ter um problema que não aparece quando analisamos uma empresa por vez.

    É nesse ponto que Matrix talvez ofereça uma metáfora melhor do que os roteiristas imaginavam. A máquina pode produzir o contrato, desenhar o edifício, escrever o código, montar a campanha, negociar uma carteira, dirigir um automóvel e, talvez em algum momento, administrar boa parte da companhia que fabrica esse automóvel. O que ela ainda não faz é acordar numa manhã de sábado querendo comprar um carro. Pode prever o desejo, induzi-lo, precificá-lo e até executar a compra em nosso nome; o desejo final continua vindo de alguém que, de alguma maneira, precisa dispor de poder aquisitivo.

    Talvez não sejamos a bateria energética das máquinas, como em Matrix. Mas continuamos sendo a bateria econômica de uma parte relevante do sistema. Produção e consumo são lados da mesma identidade, e a demanda final ainda é essencialmente humana. Uma economia pode perfeitamente aprender a produzir com pouquíssima intervenção humana. Isso não significa que tenha aprendido a vender para alguém que não possui renda.

    Damodaran chega a essa discussão por um caminho menos cinematográfico e mais familiar a quem trabalha com investimentos: valuation. Na entrevista, ele estima que a infraestrutura já construída em torno da IA tenha custado aproximadamente US$ 1,5 trilhão e que ainda venha a exigir outro US$ 1 trilhão. Sua metáfora é bastante direta: estamos construindo uma fábrica de aproximadamente US$ 2,5 trilhões e ainda não sabemos exatamente qual será a dimensão econômica do que sairá dela.

    Não é uma objeção trivial. O entusiasmo em torno da inteligência artificial costuma recorrer à analogia com software, mas a economia dos dois negócios não é idêntica. Em um software tradicional, uma vez desenvolvido o produto, distribuir mais uma cópia pode ter custo marginal muito próximo de zero. Na IA, cada utilização continua mobilizando capacidade computacional; capacidade computacional exige chips, data centers, energia, refrigeração, redes e capital. Damodaran questiona justamente se as economias de escala serão suficientes para que o custo de entrega caia na intensidade necessária para justificar os valores atribuídos hoje às empresas do setor.

    Do ponto de vista de um investidor, há portanto duas apostas embutidas na mesma narrativa. A primeira é tecnológica: os modelos continuarão melhorando, os custos cairão e as aplicações se multiplicarão. A segunda é econômica: haverá receita e margem suficientes para remunerar o gigantesco estoque de capital que está sendo imobilizado. É a segunda que me parece ganhar uma camada adicional quando seguimos até o fim a provocação de Damodaran.

    Se parte relevante da criação de valor da IA vier da substituição de trabalho caro, estaremos investindo trilhões de dólares para retirar custos justamente de atividades que hoje distribuem renda elevada. A empresa que automatiza ganha produtividade. O fornecedor de IA captura parte desse ganho. O acionista pode ser remunerado. Até aí, a conta fecha. Mas, em algum lugar fora da demonstração de resultado individual, está o profissional cuja renda foi comprimida ou eliminada. Se esse profissional rapidamente migra para uma atividade ainda mais produtiva, nenhum problema. Se isso não acontece, parte do ganho privado pode vir acompanhada de uma redução da capacidade de consumo que só aparece quando observamos o sistema como um todo.

    Não sabemos qual desses cenários prevalecerá. É perfeitamente possível que estejamos apenas repetindo um medo antigo diante de uma tecnologia nova. É também possível que a própria IA crie mercados tão grandes e ocupações tão numerosas quanto aquelas que destruir. A internet provavelmente emprega hoje, direta ou indiretamente, um número de pessoas que ninguém seria capaz de imaginar quando os primeiros navegadores apareceram. Talvez estejamos diante de algo semelhante, apenas numa escala maior.

    Ainda assim, existe algo de peculiar em uma tecnologia cujo caso de negócio mais ambicioso parece coincidir com a remoção progressiva do trabalho humano das atividades em que ele é mais valioso. Quanto melhor ela ficar, maior será a economia possível por trabalhador substituído. E quanto mais trabalhadores de alta renda puder substituir, mais importante se torna entender por onde a renda que antes os remunerava continuará circulando.

    Foi isso que me fez voltar ao relógio de O Preço do Amanhã. No filme, a questão não era propriamente quanto a sociedade era capaz de produzir. Havia comida, transporte, moradia, tecnologia. O problema estava em outra parte: quem tinha tempo suficiente para continuar participando daquela economia. O relógio funcionava como uma representação brutalmente simples do direito de consumir.

    Nós não temos aquele relógio no braço. Pelo menos ainda não. Mas a lógica econômica continua exigindo alguma resposta para a mesma pergunta. Podemos construir máquinas que programem, projetem, analisem, escrevam, dirijam e talvez decidam melhor do que nós. Podemos imaginar fábricas quase sem gente e escritórios com uma fração dos profissionais atuais. Podemos até imaginar uma economia em que a produção deixe de ser o grande problema da humanidade.

    O que ainda é mais difícil imaginar é uma economia de mercado em que ninguém precise trabalhar e, ao mesmo tempo, todos continuem tendo renda para comprar aquilo que as máquinas produzirão.

    Talvez Damodaran esteja errado quanto ao tamanho da ameaça. Talvez estejamos apenas no início de mais um ciclo extraordinário de produtividade, no qual os empregos que hoje parecem ameaçados serão substituídos por atividades que ainda não conseguimos nomear. Eu gostaria que fosse assim. A história oferece boas razões para acreditar nisso.

    Mas, enquanto centenas de bilhões de dólares continuam migrando para chips, modelos, energia e data centers, talvez valha acompanhar não apenas a evolução da inteligência das máquinas ou o custo de cada inferência. Há outro relógio correndo, menos visível e provavelmente tão importante quanto esses.

    É o relógio da renda de quem deverá comprar tudo aquilo que estamos investindo trilhões para produzir.